28/01
Por: Fernanda Torres
Na: Sexta-feira
Comecei a me aventurar pelo território da interpretação ainda moleca. Aos 13 fui estudar interpretação no Teatro Tablado, de Maria Clara Machado. Minha estreia no cinema foi aos 16, no filme Inocência.
A juventude é um território vasto para o sonho, o mergulho de cabeça, a sede por conquistar, progredir, virar “gente grande“. Comigo não foi diferente e nessa época, eu respirava, comia e dormia interpretação. Ir ao cinema, lazer para quase todo mundo, para mim era trabalho. Era em frente à telona que eu podia conhecer novos artistas, me inspirar em papéis memoráveis e até avaliar, com aquela mini bagagem que eu trazia comigo, a interpretação dos atores. Depois de quase 30 anos de estrada, posso dizer que já tive milhares de filmes que me emocionaram, que me fizeram refletir e que contribuíram para minha formação de atriz. Nunca fiz a linha crítica de cinema. Minhas impressões sempre reservei para mim e alguns poucos amigos. Era um relacionamento íntimo, eu e a sétima arte. Eu era crítica em segredo.
Mas ao longo dos anos me dei ao luxo de ser espectadora na sala de cinema. Rir, chorar, sentir raiva, medo, me apaixonar. Simples assim! Igualzinho a você. Juan José Campanella me deu mais um dia de descanso no ano passado. O hermano sabe envolver com boas histórias –e não é isso que a gente busca quando vai ao cinema?- e apresenta um mix bem delineado de personagens absolutamente cativantes. O Segredo dos seus Olhos, que faturou o Oscar de melhor produção estrangeira em 2010, me fez ficar colada na cadeira, louca pra saber o desenrolar da trama. Ricardo Darín, protagonista e ator excelente, interpreta Benjamín Espósito, oficial de justiça aposentado, sujeito que, como nós, sofre, se lasca, fica feliz, ri dos seus próprios problemas. Tudo isso sem ser um coitadinho. Benjamin é um cara maneiro, nem herói, nem bandido.
Saí do cinema achando Benjamín (ou Ricardo?) charmosão. As peculiaridades da cultura argentina ficam bem evidentes, mas não tornam o filme regionalista. Bonita a fotografia, também. Tem drama, tem romance e tem ação, como num típico tango, mas sem a cena clichê do tango. Tem referências do noir lá dos anos 40, tudo isso temperado com humor. Não aquele que te faz gargalhar até doer a barriga, mas que te desperta um risinho de canto de boca.
Fui embora pensando na simplicidade. Em como esse enredo, com toda a riqueza que a simplicidade pode ter, envolve. Os filmes densos, que tem uma beleza exótica e muitas vezes pouco palatável, as vezes fazem o expectador sair da sala com um peso nas costas. Eu saí daquela sala peso pena, com vontade de escrever, dançar… Eu recomendo! E você que me lê, se sentir vontade, pode opinar sobre esse filme também – gostou do enredo? Merecia levar a estatueta? Desperte o crítico que existe em você. O meu, acordou rapidinho, mas já está indo dormir.







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