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22/03

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Educando filhos (e pais!)


Ter filho é um barato, não tem quem não curta. Educar é pedreira. A quantidade de “nãos” que temos que dizer diariamente é infernal. Muitas vezes, a gente não aguenta e joga a toalha. É mais fácil e agradável ser amigo, conversar só sobre coisas amenas, falar que a vida é show e – o mais perigoso do discurso – dizer que seu filho vai ser uma pessoa feliz. Por quê? Porque ele é bonito, fofinho, simpático e você quer que seja assim.


Pena que nem sempre a vida seja um comercial de margarina. E alguém tem que fazer o trabalho sujo de dizer isso pra molecada. Infelizmente essa tarefa cabe a você, pai e a você, mãe. Seria muito melhor cobrir a criança – que às vezes já tem 28 anos – de beijinhos, depois que ela pisou na bola e convencê-la de que nunca mais fará isso, mesmo que ela não faça o menor esforço pra mudar.


Será que você estará ajudando, asfaltando toda a estrada por onde o pimpolho vai passar? Claro, ele vai adorar não ter conflito, mas e no futuro, como vai ser? Será que seu chefe vai repetir essa atitude? Será que ele vai aprender por conta própria a ter responsabilidade, já que você abriu mão desse papel? Educar é complicado. E frequentemente muito chato. Fazer o quê? Afinal, a gente quer deixar uma figura maneira no mundo, né?


Recentemente me caiu nas mãos um discurso sucinto que o Bill Gates fez aos formandos de uma universidade americana. São onze regrinhas básicas que, segundo ele, as escolas não ensinam. E, pelo que tenho visto, nem os pais. Olha só:


Regra 1: A vida não é fácil.  Acostume-se com isso.


Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua autoestima.  O mundo espera que você faça alguma coisa de útil por ele (o mundo) antes de aceitá-lo.


Regra 3: Você não vai ganhar vinte mil dólares por mês assim que sair da faculdade.  Você não será vice-presidente de uma grande empresa, com um carrão e um telefone à sua disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e ter seu próprio telefone.


Regra 4: Se você acha que seu pai ou seu professor são rudes, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.


Regra 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social.  Seu avós tinham uma palavra diferente para isso.  Eles chamavam isso de “oportunidade”


Regra 6: Se você fracassar, não ache que a culpa é de seus pais.  Não lamente seus erros, aprenda com eles.


Regra 7: Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora.  Eles só ficaram assim por terem de pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”.  Então, antes de tentar salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente arrumar o seu próprio quarto.


Regra 8: Sua escola pode ter criado trabalhos em grupo, para melhorar suas notas e eliminar a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim.  Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar para ficar de DP até acertar.  Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real.  Se pisar na bola está despedido… RUA! Faça certo da primeira vez.


Regra 9: A vida não é dividida em semestres.  Você não terá sempre férias de verão e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.


Regra 10: Televisão não é vida real.  Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.


Regra 11: Seja legal com os CDF’s – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas.  Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.”


Acho que o discurso inspirador que Bill Gates fez para os formandos da universidade poderia, com algumas adaptações, também ser feito para os pais na saída das maternidades. Poderia ajudar algumas fichas a cair. E confesso, a minha também!


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08/12

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Túnel do tempo

Como era a minha escola


Esta semana entrei no túnel do tempo. Peguei meu carro e viajei por mais de quarenta anos até chegar à Escola Municipal Desembargador Montenegro, na Vila da Penha. A escola comemorava seu 60º aniversário e me convidou para uma visita. É curioso voltar a um cenário da infância. Tudo parece ter encolhido, o pátio, os corredores, as carteiras na sala de aula. Esqueci que tempos atrás o encolhido era eu, um mirrado moleque que saía de casa com uma pasta de couro e uma merendeira de plástico à tira-colo. Atravessava a estrada Vicente de Carvalho e seguia por uma trilha entre os diversos campinhos de futebol até entrar no portão da escola.


Minha memória não tem backup, pouca coisa daquela época consegui manter salvo. Uma delas é que o ensino público funcionava. Alguns professores eram famosos no bairro e as vagas em suas turmas, disputadíssimas. Esse era o caso da dona Sheila (não as chamávamos de tia). Para os alunos, um terror. Todos tínhamos um caderno de testes no material. A qualquer momento, podíamos ser surpreendidos com a frase: “Caderno de testes sobre a carteira.” A turma gelava. Teste surpresa. Ou seja, não tinha essa de estudar em cima da hora, tinha que estar sempre preparado porque, quando menos se esperava, o bicho podia pegar.


Era assim meu uniforme…


Lembro-me também de uma outra professora, dona Edite, que adotava um método menos assustador e, ainda assim,  ensinava e cobrava da gente o dever de casa, a matéria estudada, o silêncio dentro de sala. Em compensação, não precisei de um curso preparatório para ser aprovado no “vestibular” do Colégio de São Bento, onde fiz a segunda etapa do ensino fundamental e o ensino médio.


O recreio era uma zona mesmo, futebol, pique, bola de gude. Suávamos o uniforme até ouvir soar a sineta. A zoação era generalizada e, como nos fundos da escola avistávamos um morro com uma grande área verde, inventávamos quadrinhas pra pilhar os amigos:


“Lá em cima daquele morro


passa boi, passa boiada


só não passa o zé roberto


de cueca mal lavada”


A molecada conectada!


Décadas depois, a realidade é outra. A escola hoje é cercada por um grande conjunto habitacional, nada de vaquinhas no morro, agora ocupado por barracos. As professoras lutam com dificuldade para recuperar a qualidade do ensino. Oferecem atividades extra-curriculares para as crianças e para os pais da comunidade. Animado com o empenho delas, dei uma força para que conseguissem montar um departamento de informática. E torço pra que formem ali gerações de meninas e meninos vencedores. E torço também pra que o Zé Roberto agora já lave suas cuecas!


Levei meus moleques pra conhecer a escola que estudei quando tinha a idade deles. Na foto, também meu pai


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11/08

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Afinal, pra que serve um pai?


Quando a criança tem um problema sério de saúde, ela sabe muito bem quem deve procurar: a mãe, é claro. Mas e quando a criança está com saúde, bem alimentada, fralda limpa, ou seja, com tudo em cima, e só quer brincar, a quem ela vai recorrer? Ao papai ou à mamãe? A princípio, tanto faz. A criança só precisa de mais duas mãos pra empurrar os carrinhos na cidade fictícia. Mas ela prefere brincar com o pai.


Para tentar compreender por quê, pesquisadores instalaram câmeras nos quartos de várias crianças para registrar o momento das brincadeiras. E o resultado foi unânime: a brincadeira envolvendo o pai durou em média duas vezes o tempo da mesma brincadeira feita com a mãe.


O que mostraram as câmeras? Nos primeiros trinta segundos, é tudo igual: a criança explica o que está acontecendo e tanto o pai quanto a mãe parecem prestar atenção. Daí para diante, vê-se uma brusca diferença de comportamento. A criança começa a enfileirar os carrinhos, a mãe segura um solitário veículo e, de joelhos sobre a cidadezinha, atrapalhando o fluxo, olha fixo para o filho com um sorriso nos lábios. Que criança linda ela pôs no mundo! – pensa a mãe, orgulhosa. E como está crescida! Quanta criatividade! O pequeno engarrafamento é perfeito, seu filho sabe reproduzir o ronco do motor de cada carro, o buzinaço é igualzinho ao que ela costuma ver nas ruas. Todos os carros do garoto estão envolvidos no trânsito caótico, menos o que está na mão dela, esse continua flutuando fora da cidadezinha. O filho chama a mãe para a real, não adianta, ela está em transe admirando a belezura que é o seu pimpolho. Até que ela não se segura, larga o carrinho, agarra o menino e enche de beijos. Pronto, acabou-se a brincadeira.


Já o pai mergulha de cabeça no passatempo e se comporta como se fosse o motorista de uma das miniaturas. Buzina, acelera, xinga, ajudando a criança a se sentir em plena hora do rush. Ele até disputa a posse dos carrinhos mais maneiros e dos bonecos mais irados com o filho. Mas não faz isso por razões didáticas ou educacionais. É que nós, homens, somos meio infantis mesmo!


Não é preciso muito para regredirmos aos dez, cinco ou três anos de idade. Fica mais fácil para nós porque não atingimos plenamente a fase adulta. Nunca chegamos lá.  Basta ver um grupo de amigos quarentões longe das suas esposas. Logo se tornam uns adolescentes, dão tapas na cabeça uns dos outros, chutes na bunda e se sacaneiam com piadinhas de duplo sentido. O homem, na verdade, não cresce, só finge que é adulto na frente da mulher e do patrão.


E os filhos já perceberam isso. Eles sabem que na falta de um amiguinho da sua idade pra brincar, é só gritar “paiê!”, que logo aparece o crianção.


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04/08

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Quando as crianças saíram de férias…


Quando as férias escolares começam, bate aquele desespero. Como distrair a molecada? Cinema? Teatro? Parquinho? Bicicleta? Opções não faltam. Mas tem um problema: você não está de férias. Pode deixá-los num clube com outros coleguinhas, levá-los pra casa de um amiguinho,  condená-los a passar o dia no videogame, mesmo sendo contra esta tática… É preciso lançar mão de todo tipo de arma.


A casa se transforma num verdadeiro playground. O sofá vira um pula-pula, a parede da sala agora é uma baliza, corredor se torna um campinho e qualquer objeto decorativo desempenha o papel de alvo de borrachas, clipes, bolinhas de papel ou qualquer artefato que as pestes tenham em mãos. No fim do mês, você não sabe como conseguiu sobreviver a tudo isso. Mas sabe que merece um descanso.


Foi o que fizemos no último fim de semana de julho. Exportamos os filhos pra casa da avó e recebemos nossa casa de volta. A partir do momento em que os garotos se foram, descobrimos coisas incríveis dentro da nossa própria casa. Primeiro: o silêncio. Sim, existe o silêncio, aquela ausência de som que nos permite se concentrar pra ler um livro sem ser interrompido. Também não precisamos  assistir a um filme de adulto depois que todos se deitaram. Percebi que podia me esparramar no sofá sem me lambuzar com um brigadeiro esquecido entre as almofadas. Pude dormir até tarde, já que não tinha que me preocupar em encher a barriga de nenhum pirralho. Aliás, pude tomar um porre no almoço e dormir a tarde toda, sem correr o risco de estar dando um mau exemplo. E também consegui passar 48 horas sem mandar ninguém lavar o rosto, escovar os dentes, comer tudinho, guardar os brinquedos. E notei que, sem criança pra cuidar, o números de broncas da patroa cai sensivelmente!


No domingo à noite já estava com saudade de tudo isso. Mas ficou aquela vontade de ir até Brasília fazer lobby para incluir um artigo na Constituição: “Todo casal tem o direito a pelo menos um fim de semana de seus filhos na casa dos avós!”. E pode ter certeza: os pequenos também vão adorar se ver livres dos pais por um tempo. Mas nada de insegurança: eles também vão morrer de saudades de vocês!


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17/03

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Olhar e não ver

No jardim de casa, o garoto flagra esse beija-flor tesoura. E eu só tirando foto de pardal…


Foto: João Couto


Há cerca de dois anos levei meu filho, na época com sete anos, para um passeio no Jardim Botânico do Rio. Não era um passeio qualquer e sim um encontro de observadores de aves.


Como toda criança, João curte bichos. Achei que iria gostar de ver uns pássaros e aprender um pouco sobre eles com ornitólogos e apreciadores de penosas. O efeito foi maior do que imaginava. O garoto passou a se interessar profundamente pelo assunto. Tornou-se frequentador assíduo deste encontro, me levando à tiracolo. Nos aniversários, ao invés de carrinhos ou bonecos, pedia binóculos, máquina fotográfica, gravador de som, todo o equipamento necessário para se tornar um observador de pássaros profissional.


Acompanho abismado essa turma. Eles não se interessam apenas pelos pássaros coloridos e vistosos, desses que cantam tão bem que poderiam concorrer – e vencer – um American Idol. Não, eles se encantam com uns bichinhos mirrados, de penas cinzas, de visual muito sem graça. Às vezes não conseguem ver a pequena ave, no meio de galhos e folhagens, mas se satisfazem ao ouvir seu canto, só de saber que ela está ali. Esse povo, João inclusive, desenvolve uma incrível capacidade de enxergar pássaros onde eu mal enxergaria um hipopótamo pousado. Reconhecem as espécies pelo ninho ou pelo cocô encontrado.



João e seus companheiros observando pássaros no Jardim Botânico do Rio. A primeira impressão é que os pássaros só aparecem para eles. Mas com paciência, a gente também consegue vê-los.


Foto: Flavio Pereira


Essa paixão do meu filho me leva a caminhar pela floresta da Tijuca às seis da manhã. Já convenceu a família a ir à Amazônia, ao Pantanal e recentemente à Galápagos. O inusitado nessa história não são as viagens maravilhosas que fizemos por conta disso. Mas a transformação do meu dia a dia. João não precisa ir longe para observar os pássaros. Não precisa nem sair de casa. Basta chegar na janela e ali ficar pacientemente olhando as árvores, os fios, o céu. Dali a pouco está me mostrando um bem-te-vi, um beija-flor, um tucano, papagaios das mais variadas espécies. E eu crente que na minha rua só tinha pardal! Chegou ao cúmulo de afirmar que havia uma coruja num parque do Leblon. Achei um exagero, pensei em levá-lo a um terapeuta, até que me apresentou o canto da coruja gravado no seu aparelhinho.


Sempre achei que esse papo de que a gente aprende com os filhos fosse balela. Mas é a pura verdade. Aprendi com o João que a  Natureza está viva e presente a nossa volta, é uma questão de estar atento. A inspiração pode estar na sua janela, basta correr atrás.


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19/11

Por: Fernanda Torres

Na: Sexta-feira

Ninho


Nada mais inspirador e transformador do que os filhos.


Passar de novo pela infância através deles, ver o próprio ego ir para o espaço por conta de um projeto de gente, deixar de fazer o que se quer sem protesto ou cara feia e sentir aquele amor incomensurável, inexplicável, inaudito, incabível, imenso, é uma chacoalhada tão grande naquilo que antes se chamava “eu”, é algo que desperta um sentimento tão profundo de compaixão pela humanidade que, como diz Millôr Fernandes, o candidato ao cargo de mãe, ou pai, deveria passar por um teste psicotécnico antes de encarar a responsabilidade.


Cuidar de um bebê indefeso, dar de mamar, protegê-lo dos perigos da vida, ensiná-lo a comer, a fugir, a se defender, tudo isso exige uma abnegação tão absoluta,  que qualquer progenitor menos vocacionado poderia se sentir inclinado a abandonar a cria pelo caminho.


Para se prevenir de pais relapsos, a natureza dotou os bebês e filhotes da maioria dos mamíferos de uma irresistível atração, um jeitinho fofo, ou cute factor, apelidado pelos americanos, justamente para impedir a profusão de menores abandonados por aí.


Pegue o mais indiferente  dos adultos e ponha-o diante de um rostinho redondo de um moleque de dois anos, ou de um filhote de cachorro para ver o mais rabugento dos rabugentos se derreter por inteiro.


Pois uma amiga, outro dia, mãe de dois adolescentes homens, criou a teoria contrária. Segundo ela, cuidar de adolescente é tão desesperador, é um processo que envolve tanto medo e irritação, eles fazem tanta bobagem, que essa moça passou a desconfiar que tamanho desespero também seja um artifício da mesma mãe natureza para fazer os pais aceitarem que os filhos saiam de casa.


Seria o too much factor, ou it’s enough factor (o fator assim já é demais), que curaria os responsáveis do receio do ninho vazio, levando-os a tirar os filhos do conforto da aba de suas asas sem maiores culpas, choros ou arrependimentos, obrigando os marmanjos a voarem em direção às suas próprias vidas.


Faz sentido.


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