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26/04

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Fila cultural

Operários, de Tarsila do Amaral


Fim de semana chuvoso, reunimos a família para um programa off-praia. Imaginei como os cinemas estariam lotados, portanto uma chance de levar a molecada a uma exposição. Abri o jornal e fiquei surpreso com as boas opções que a cidade oferecia. Tinha Modigliani e Eliseu Visconti no Museu Nacional de Belas Artes, desenhos de Fellini no Instituto Moreira Salles, fotos do beijoqueiro francês Robert Doisneau, as cadeiras e seus arredores dos irmãos Campana… Minha mulher sugeriu que fôssemos ao Centro Cultural Banco do Brasil ver a mostra Tarsila do Amaral, sua primeira exposição individual no Rio em quarenta anos.


Chegando no Centro Cultural, tive a impressão de que todo mundo teve a mesma ideia. Ainda pensei que minha mulher talvez tenha falado alto demais, o pessoal ouviu e achou uma boa ideia. A fila descia as escadas do prédio e se estendia pelo salão principal. Tomei um susto. Comecei a calcular o tempo da espera quando me dei conta do fenômeno que ocorria: a fila transcorria na maior paz.


Geralmente fila é sinônimo de tumulto. Fila grande significa um ajuntamento de pessoas revoltadas. Não foi o que eu vi. Aliás, não é o que se vê em filas para exposições. As pessoas aguardam tranquilas a sua vez. Ficamos todos, na verdade, impressionados com a força de um artista plástico que consegue mobilizar tanta gente para apreciar seus trabalhos. E quem tinha alguma dúvida da importância do artista, passa a ter certeza ao ver quanta gente está ali. Chega a dar um certo orgulho cívico, uma sensação de que o país está andando pra frente, nem que para isso tenha que entrar numa fila.


As crianças ficaram curiosas para saber o que aquele pessoal tanto queria ver. Temos o hábito de levar um caderninho para cada um desenhar, uma forma de passar o tempo. Enquanto caminhávamos a passos milimétricos, mostramos a eles algumas coisas sobre Tarsila e o Modernismo pela internet do celular, outra maneira de nos ocuparmos.


Definitivamente a fila faz parte da exposição. Se algum dia for curador, vou me preocupar com isso. Quantas vezes a pessoa encontra um amigo e comenta: “Fui a uma mostra no MAM e tava uma fila enorme!” E nem se irrita com isso, até emenda: “Ainda bem que eu fui porque era a última semana…” Então fala do que viu, deixando o outro com água na boca por ter perdido a mostra… e até a fila,  onde se pode conhecer gente interessante e de hábitos saudáveis.  Tem solteiro que garante: certas filas dão de dez em muitas baladas que rolam por aí…


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19/04

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Muito além da caixinha de surpresas

Nem tudo no futebol tem a ver com a bola. Vitórias e derrotas podem acontecer fora de campo. E um desses aspectos me chamou a atenção. Um jogador do elenco do Botafogo se envolveu em um sério problema com drogas. Jobson foi flagrado num exame antidoping e confessou ser usuário de crack. Ao expor sua fraqueza, passou a ser visto com desconfiança por muita gente. Foi alvo de piadas, de preconceito e de pouca solidariedade. Na contramão dos fatos, um profissional da saúde resolveu se aproximar do jogador para tentar ajudá-lo a sair dessa.


O psiquiatra Roberto Curi Hallal se impôs um desafio: recuperar o jogador Jobson com um tratamento que não prevê internações ou punições exageradas. Roberto parte do princípio de que todos temos problemas e que podemos superá-los. Achei sua atitude corajosa e seu exemplo inspirador. Vamos ver o que ele tem a nos dizer.


- Dr. Roberto, afinal, qual o problema do Jobson?


Não se pode resumir uma vida inteira a um problema. Como qualquer ser humano, ele pode melhorar se dedicar-se a isto. Pode crescer como pessoa, incorporando uma cultura que lhe permita viver esta difícil posição que é ter uma vida privada, sendo uma figura pública.



- O que o levou a querer ajudar o jogador?



Minha paixão pelo Botafogo e por acreditar que não haviam sido realizados alguns cuidados que permitiriam ao Jobson pensar e agir de um modo diferente. Entendi que deveria me oferecer para ajudar. Assim que me ofereci ao Botafogo para ajudar, fui aceito.



- Como sua atitude tem sido vista?


Tenho tido o maior apoio nesta minha dedicação por parte da imprensa e do Botafogo. A decisão de não internar o atleta ganhou a simpatia de muitos. A inclusão social através de um convívio com reflexões sobre a vida é algo que dimensiona a realidade para vivermos dentro dela. Até aqui estamos todos os envolvidos, nos enriquecendo como pessoas e como instituição, tanto o Botafogo, seus representantes e, mais diretamente, Jobson e eu. Construir oportunidades enaltece e enriquece aos envolvidos, humanizar cuidados incentiva e devolve alegria à vida.


- O senhor está tentando ajudá-lo. E ele, está disposto a se ajudar?



Nada é definitivo na vida, em cada momento deveremos atualizar isto. Nos cinco meses que o acompanho, tem dado evidências de uma mudança significativa em sua vida, então acredito que desta forma o atleta acaba beneficiado. A conquista é uma etapa, a manutenção será outra etapa. Como se pode ver, as metas mudam e os cuidados também.


- O senhor pode afirmar que Jobson está livre das drogas?



Alguém poderia afirmar que ele foi prisioneiro delas? Eu nunca acreditei nisto e foi exatamente por isso que nunca indiquei internação. Somente se deve usar uma internação quando o ser humano põe em risco sua vida ou a vida daqueles que o cercam. Então estaríamos falando de medidas protetoras. Quando se fala em drogas, se negligencia tantas outras coisas, quase sempre mais importantes e mais negativas para as pessoas.



- Por que algumas pessoas com as mesmas origens sociais que ele não incorrem nos mesmos erros?



Porque as razões que levam as pessoas a viver são multideterminadas, desta forma não é uma causa promovendo um efeito. Algumas marcas mais fortes acompanham a vida com mais presença que outras. Isto não significa que o destino não possa ser mudado em qualquer momento, desde que a pessoa deseje esta mudança. Não será pelo desejo dos outros ou pelo interesse dos demais que alguém encontra razões para mudar seu modo de viver.



- O senhor acha que o Jobson pode superar essa fase e  render em campo o que a torcida espera dele?



Nunca vi questionado o atleta, todos sabem que ele é um jogador excepcional. Estamos investindo no homem Jobson para que ele se aproxime o mais que puder do atleta que alcançou ser. Se o crescimento do homem acompanhar o desempenho do atleta, estaremos diante de uma pessoa especial.


- Que outros trabalhos o senhor desenvolve nesta área?



Sou Professor Emérito da Universidade de Cuba, colaboro com universidades da Venezuela, do Equador e da Argentina. Aqui no Brasil sou o idealizador e diretor-geral do Centro de Referência à Vida do Instituto Oziris Pontes, na caatinga cearense, e também participo como diretor do Instituto Ler É Abraçar no Rio de Janeiro. Sou membro permanente de um grupos de pensadores sobre Humanidades em Catanzaro na Itália, onde definimos políticas públicas de 22 países do Mediterrâneo e quatro latino-americanos. Sou membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores e assessor permanente de Cultura e Saúde Mental da Associação Latino-americana de Pediatria – Sessão de Adolescência.


- Recentemente a imprensa deu a entender que, sem internação ou punições, o senhor trataria o Jobson na base do humor. Posso usar no meu carro o adesivo: “Só o humor salva”?



O humor salva ou fere. Use-o com adequação.



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12/04

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Sucesso fácil


Levanta a mão aí quem nunca ouviu Michel Teló cantando os versos:


“Delícia, delícia


assim você me mata


Ai, se eu te pego


Ai ai, se eu te pego”


É, ninguém se acusou. Nem aqui nem na Espanha, Itália ou Holanda, onde a música alcançou o primeiro lugar nas paradas. Cantada por Neymar, por Cristiano Ronaldo ao comemorar um gol no Real Madrid, não deixa dúvida, é um sucesso fulminante. Em apenas dois minutos e pouco, dez versos distribuídos em três estrofes, “Ai se eu te pego” (*) cola no ouvido. E, mesmo que você deteste, pode se pegar distraído num engarrafamento repetindo baixinho o mega hit.


Muita gente não suporta ritmos populares, tem aversão a canções que o povão ama e banaliza o trabalho com frases do tipo “é mais uma daquelas musiquinhas feitas pra fazer sucesso e vender milhões…” Fico me perguntando: se a pessoa considera tão fácil criar um grande sucesso, por que não o faz? Não é preciso um extenso vocabulário nem conhecimento de sofisticadas linhas melódicas. Depois, você pode abominar sua criação, contar para os amigos que só compôs aquela música porque estava desempregado, precisando de dinheiro e que nunca mais voltará a se curvar ao dinheiro fácil.


Na verdade, o buraco é mais embaixo. Soluções se revelam simples depois de prontas. Ninguém antevê o sucesso. Nenhum compositor se senta em frente a um papel em branco e diz: “agora, dá licença que vou criar uma música que vai render milhões.”. O sucesso é misterioso e, muitas vezes, composto de simplicidade. Dá a impressão de que qualquer um o faria. Não quero discutir a qualidade da obra, mas o intrigante elemento que ela tem de agradar a milhões de pessoas no mundo inteiro.


Sharon Acioly tem quarenta anos, era animadora de um quiosque em Porto Seguro, na Bahia. Já tinha inventado um hit da internet “Dança do Quadrado“. Nunca tinha visto Michel Teló mais gordo (nem mais rico). E, a partir de uma brincadeira coreografada pra movimentar as férias dos universitários, Sharon conheceu uma fama inimaginável.


A música é só um exemplo. O mesmo acontece no cinema : “Sabe aqueles  filminhos feitos pra atrair milhões de espectadores?” Ou nas artes plásticas: “Essa pintura daí, me desculpe, mas meu sobrinho de quatro anos faria igualzinho…”.


Ninguém sabe de que matéria é feito um grande sucesso. Mas, ainda que não seja a sua praia, é legal dar atenção a certos fenômenos. Encará-los com menos preconceito, menos arrogância. Inspirar-se e, quem sabe, tirar dali uma boa lição para um futuro triunfo.


(*) preferi apresentar uma versão japonesa do mega-sucesso, já que em português deve ter acabado de tocar num rádio perto de você.



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11/04

Por: Raphael Despirite

Na: Quarta-feira

O que importa…


O mundo anda meio chato, cheio de pudores e mau humor, as pessoas parecem se levar mais a sério do que o normal. A cada dia surgem mais leis proibindo isso ou aquilo, na gastronomia sobram especialistas de todas as áreas: os comilões são gourmets, bebedores “sommeliers” e qualquer cozinheiro se autodenomina chef master super internacional.


Tem também os movimentos e bandeiras gastronômicas que se espalham por aí, é a nova cozinha brasileira pra lá, chefs ecologistas pra cá…  Surgem novos engajamentos todo dia, como o  locavorismo, aquele em que o cozinheiro só pode trabalhar com ingredientes produzidos a no máximo x km de distância do restaurante. O “x” varia, pode ser 300 km por exemplo, a ideia é utilizar produtos frescos e poupar combustível da distribuição.


Tudo muito bacana se não fosse celebrar o óbvio. Utilizar produtos frescos, preocupar-se com a sustentabilidade e com o impacto das ações no meio ambiente e na sociedade não é mais virtude de um chef, muito menos precisa ser um movimento organizado. É o mínimo que se espera de qualquer profissional sério atualmente, é como se um médico fosse festejado por nunca ter matado nenhum paciente.  Dá pra entender?


Escrevo esse post para lembrar vocês e até para me lembrar que comida não pode ser levada sempre tão a sério. O prazer, depois da nutrição, é claro, é o que nos leva a comer.


Quando escolhi trabalhar como cozinheiro foi por um motivo simples, queria fazer comida gostosa e tornar as pessoas felizes. Não estava preocupado em passar mensagens, exibir minha técnica ou habilidades. O cozinheiro acima de qualquer coisa tem que ser um cara generoso, e no fundo, mesmo que pareça meio louco o que vou dizer, a única coisa que importa é comer e ser feliz.


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22/03

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Educando filhos (e pais!)


Ter filho é um barato, não tem quem não curta. Educar é pedreira. A quantidade de “nãos” que temos que dizer diariamente é infernal. Muitas vezes, a gente não aguenta e joga a toalha. É mais fácil e agradável ser amigo, conversar só sobre coisas amenas, falar que a vida é show e – o mais perigoso do discurso – dizer que seu filho vai ser uma pessoa feliz. Por quê? Porque ele é bonito, fofinho, simpático e você quer que seja assim.


Pena que nem sempre a vida seja um comercial de margarina. E alguém tem que fazer o trabalho sujo de dizer isso pra molecada. Infelizmente essa tarefa cabe a você, pai e a você, mãe. Seria muito melhor cobrir a criança – que às vezes já tem 28 anos – de beijinhos, depois que ela pisou na bola e convencê-la de que nunca mais fará isso, mesmo que ela não faça o menor esforço pra mudar.


Será que você estará ajudando, asfaltando toda a estrada por onde o pimpolho vai passar? Claro, ele vai adorar não ter conflito, mas e no futuro, como vai ser? Será que seu chefe vai repetir essa atitude? Será que ele vai aprender por conta própria a ter responsabilidade, já que você abriu mão desse papel? Educar é complicado. E frequentemente muito chato. Fazer o quê? Afinal, a gente quer deixar uma figura maneira no mundo, né?


Recentemente me caiu nas mãos um discurso sucinto que o Bill Gates fez aos formandos de uma universidade americana. São onze regrinhas básicas que, segundo ele, as escolas não ensinam. E, pelo que tenho visto, nem os pais. Olha só:


Regra 1: A vida não é fácil.  Acostume-se com isso.


Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua autoestima.  O mundo espera que você faça alguma coisa de útil por ele (o mundo) antes de aceitá-lo.


Regra 3: Você não vai ganhar vinte mil dólares por mês assim que sair da faculdade.  Você não será vice-presidente de uma grande empresa, com um carrão e um telefone à sua disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e ter seu próprio telefone.


Regra 4: Se você acha que seu pai ou seu professor são rudes, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.


Regra 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social.  Seu avós tinham uma palavra diferente para isso.  Eles chamavam isso de “oportunidade”


Regra 6: Se você fracassar, não ache que a culpa é de seus pais.  Não lamente seus erros, aprenda com eles.


Regra 7: Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora.  Eles só ficaram assim por terem de pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”.  Então, antes de tentar salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente arrumar o seu próprio quarto.


Regra 8: Sua escola pode ter criado trabalhos em grupo, para melhorar suas notas e eliminar a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim.  Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar para ficar de DP até acertar.  Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real.  Se pisar na bola está despedido… RUA! Faça certo da primeira vez.


Regra 9: A vida não é dividida em semestres.  Você não terá sempre férias de verão e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.


Regra 10: Televisão não é vida real.  Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.


Regra 11: Seja legal com os CDF’s – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas.  Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.”


Acho que o discurso inspirador que Bill Gates fez para os formandos da universidade poderia, com algumas adaptações, também ser feito para os pais na saída das maternidades. Poderia ajudar algumas fichas a cair. E confesso, a minha também!


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23/02

Por: Helio de La Pena

Na: Quinta-feira

Feliz 2012!


O carnaval passou, o resultado das escolas de samba saiu, até o horário de verão está chegando ao fim. Agora não tem mais desculpas. Não tem mais pra onde empurrar com a barriga. O ano começou!


Brasileiro adora deixar pra amanhã o que podia ter feito ontem. Não sei se por preguiça ou por desejo de sentir aquele friozinho na barriga – “ih, será que vai dar? Ai meu Deus, falta tão pouco…” Assim é com dever de casa, com relatórios no trabalho, com a revisão do carro. A gente gosta de se sentir atabalhoado, nervoso, sem tempo pra nada, mesmo quando teve todo o tempo do mundo.


Lembro de uma vez que tinha que apresentar uma pesquisa no colégio. O professor de geografia anunciou no primeiro mês que todos os alunos teriam que expor seus trabalhos para a turma a partir do segundo semestre. E passou o tema que cada um de nós teria que preparar. Faltava muito tempo, ninguém nem anotou a tarefa. Fiquei ainda mais descansado quando soube que estaria entre as últimas apresentações do ano. O professor ainda me falou: “Assim você vai poder caprichar”.  Era um trabalho sobre petróleo, muito antes de toda essa onda de pré-sal.


Tudo que fiz foi passar na Petrobras e reunir amostras de derivados de petróleo e diversas publicações sobre o assunto. O material foi empilhado no meu quarto com bastante antecedência, o suficiente para me sentir um britânico. A partir daí voltei a relaxar. O professor me via e perguntava:


- Então Helio, como andam as coisas?


- Muito bem, mestre!


- Quando tiver um rascunho, traga pra eu orientar você.


- Professor, prefiro mostrar quando estiver pronto. – desconversei tentando evitar o mico.


O tempo passou, como sempre mais rápido do que percebi. Às vésperas da apresentação, a pilha de fontes jorrava na minha mesa. Nenhuma palavra no papel. Bateu o desespero. E a lembrança da expectativa depositada no meu trabalho. Tenso. Comecei a organizar o texto.


Uma semana antes de encerrar o prazo, o professor adoeceu. Ficamos quinze dias sem aulas. O ano letivo estava se concluindo, não haveria mais tempo para apresentações. Os alunos que não expuseram – eu entre eles, deveriam entregar seus trabalhos. Levei o que tinha reunido, incluindo as amostras de derivados de petróleo. O professor se surpreendeu de eu ter “pesquisado” tanta coisa, mas achou que a coisa estava um tanto bagunçada.


- Pois é, se eu tivesse um pouco mais de tempo…


Passei de ano. Mas fiquei frustrado. No fundo queria ter feito o trabalho direito, só que me enrolei. Até hoje me lembro da sensação desagradável de não corresponder ao esperado, de não ter feito algo que tinha toda condição de realizar. Até hoje imagino que, se for convidado para ser Ministro das Minas e Energia, só vou aceitar depois de concluir minha pesquisa sobre o petróleo.


Ainda tem tempo. Afinal, pensando bem, o ano só começa pra valer na próxima segunda-feira, né?


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