03/12
Por: Fernanda Torres
Na: Sexta-feira
Levei anos fugindo do sol. Criança, em um fim de semana em Búzios, saí com o bote para além da arrebentação e fiquei ali, debaixo do astro rei de meio dia, à deriva. Na volta, sentada no banco de trás da Kombi da minha família, levantei o canto do biquini e percebi que um tom arroxeado separava, com uma bem linha definida, a pele branca do bumbum do resto da coxa.
No banho, o roxo se transformou em vermelho vivo. Um ardor febril me fez dormir sentada pelos próximos sete dias, eu não conseguia nem andar ereta; foi um calvário. Quando melhorou, fui acometida de uma coceira incontrolável, depois descasquei como cobra, até adquirir um tom marrom que rápido transmutou-se em amarelo.
Eu não bronzeio, vou do vermelho ao amarelo salpicado de manchas.
Morando em uma cidade de praia, passei a adolescência em brancas nuvens, alheia à fervilhante social das areias. Eu detestava a muvuca e a suadeira.
Foi a partir dos dezoito que a orla do Rio se abriu para mim. Eu gostava de dirigir à tardinha até a Barra da Tijuca e passei a estacionar para molhar o pé e tomar um coco. Descobri a chave do paraíso.
Quando se vai à praia cedo, o sol sobe até ficar à pino. Na chegada é uma maravilha, mas a saída é degradante. De tarde, parece que Deus ligou o ar condicionado celeste. Além do sol baixar, o céu oferece cartões postais de beleza inaudita. Fiquei tão deslumbrada com a descoberta que dei pra caminhar quilômetros à beira mar. Um dia, arrisquei trotar, até que comecei a correr. Corro até hoje, a experiência mudou minha vida.
O verão não é mais o bicho papão de outrora. Adoro a mudança de horário e não me desespero com o bafão da manhã porque sei que lá para as seis a princesinha do mar vai estar nos trinques.
Vem chegando o verão, inspire-se.







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