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03/12

Por: Fernanda Torres

Na: Sexta-feira

Verão


Levei anos fugindo do sol. Criança, em um fim de semana em Búzios, saí com o bote para além da arrebentação e fiquei ali, debaixo do astro rei de meio dia, à deriva. Na volta, sentada no banco de trás da Kombi da minha família, levantei o canto do biquini e percebi que um tom arroxeado separava, com uma bem linha definida, a pele branca do bumbum do resto da coxa.


No banho, o roxo se transformou em vermelho vivo. Um ardor febril me fez dormir sentada pelos próximos sete dias, eu não conseguia nem andar ereta; foi um calvário. Quando melhorou, fui acometida de uma coceira incontrolável, depois descasquei como cobra, até adquirir um tom marrom que rápido transmutou-se em amarelo.


Eu não bronzeio, vou do vermelho ao amarelo salpicado de manchas.


Morando em uma cidade de praia, passei a adolescência em brancas nuvens, alheia à fervilhante social das areias. Eu detestava a muvuca e a suadeira.


Foi a partir dos dezoito que a orla do Rio se abriu para mim. Eu gostava de dirigir à tardinha até a Barra da Tijuca e passei a estacionar para molhar o pé e tomar um coco. Descobri a chave do paraíso.


Quando se vai à praia cedo, o sol sobe até ficar à pino. Na chegada é uma maravilha, mas a saída é degradante.  De tarde, parece que Deus ligou o ar condicionado celeste. Além do sol baixar, o céu oferece cartões postais de beleza inaudita. Fiquei tão deslumbrada com a descoberta que dei pra caminhar quilômetros à beira mar. Um dia, arrisquei trotar, até que comecei a correr. Corro até hoje, a experiência mudou minha vida.


O verão não é mais o bicho papão de outrora. Adoro a mudança de horário e não me desespero com o bafão  da manhã porque sei que lá para as seis a princesinha do mar vai estar nos trinques.


Vem chegando o verão, inspire-se.


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25/10

Por: Rosana Hermann

Na: Segunda-feira

Os oráculos não mentem jamais


O mundo sempre quis prever o futuro, antecipar os acontecimentos, adivinhar o que está por vir. E este poder sempre esteve ligado às divindades. A palavra adivinhar, vem do latim divinare, de divinus, divino. Outro player essencial do processo de adivinhação é o  intérpretes da ‘linguagem divinatória’, o profeta.
Pitonisas e profetas humanos que acreditam que o destino está escrito em algum lugar, já tentaram ler as mensagens nos lugares mais variados. Nas estrelas, nas entranhas de animais, nas runas, nos búzios, na borra do café, em varas de bambu. Das conchas às tripas, passando pelos astros, tudo já foi usado. Tem gente que lê na fumaça, nas gotas de água, nas folhas que balançam com o vento.


É evidente que ninguém aqui acredita na cigana contratada para a festa de fim de ano da firma que monta sua barraquinha no estacionamento da empresa. Nem na pessoa que oferece seu serviço numa faixa de rua prometendo trazer seu amor de volta em três dias. Esses camelôs da adivinhação buscam apenas a sobrevivência e, no máximo, vão ler o próprio futuro na assinatura do cheque do pagamento da consulta.


Porém, mexer com o mundo das possibilidades é abrir uma porta para a reflexão diante do aleatório. E é aqui que está a beleza da coisa. Aleatório quer dizer ao acaso, à sorte. Alea, é sorte em latim. E, como somos todos frutos do acaso, como a vida é feita de aleatoriedades e de fatos indeterminantes, podemos sempre tirar alguma inspiração para a reflexão a partir de episódios aleatórios. A carta tirada ao acaso, as conchas jogadas na mesa, o café no fundo da xícara. A tradução desses eventos da casualidade, por mais tendenciosa ou tola que possa ser, sempre abre a porta para um momento de meditação. Não importa o que diz exatamente o texto do biscoito da sorte ou do periquito do realejo (aliás, são sempre textos antigos e complexos, não?). Não vamos interpretá-los ao pé da letra. O que conta é colocarmos nossos cérebros, por um momento, diante das possibilidades, saindo do racional cartesiano e abrindo espaço para outros acontecimentos.


Assim, se você quiser investir um momento no plano do divinatório, visite alguns sites. Faça o seu biorritmo para duas semanas no The Facade, abra um biscoito da sorte (em inglês) sem ingerir as calorias da massinha do biscoito. Faça uma pergunta para o oráculo do Sim ou Não (e, se não gostar da resposta, tente outra).


Se nada disso der certo, abandona a arte da adivinhação e parta para a poesia, grande fonte de inspiração para a reflexão. Eu, por exemplo, encontro sempre alguma coisa profunda e nova num site que ensina uma palavra em chinês por dia, o Zhongwen. As palavras em chinês, compostas por justaposição de ideogramas, oferecem quase poemas. Como a palavra amor, composta por relacionamento e duas pessoas. Ou a triste ‘depressão’, formada por um coração atrás de uma porta.


É claro que ninguém vai trazer seu amor de volta em três dias, nem vai enxergar o seu futuro par nas linhas da sua mão e que nem tudo é pra ser levado a sério. Mas como nos ensinaram os alquimistas, as coisas podem ser transformadas, transmutadas. E assiiim… se a vida ou os oráculos lhe derem um limão, use-o como tempero pra sua inspiração. : )


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A vida, quando vista de uma maneira diferente, fica muito mais gostosa e inspiradora. Acesse e descubra.


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