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05/11

Por: Fernanda Torres

Na: Sexta-feira

Solar


Amo a literatura do século XIX, seus romances de sentimentos largos e personagens desesperadamente humanos. Reconheço o valor de muitos autores modernos , mas raros são os que me enlevam.


Na adolescência, descobri a ironia de Machado de Assis e, um pouco mais tarde, o cinismo de Flaubert. Eu tinha uns dezenove anos e era bastante ignorante – ainda sou, mas era mais – quando um amigo inteligentíssimo me falou entusiasmado da reedição de Bouvard e Pécouchet, última obra inacabada de Gustave Flaubert. Comprei por curiosidade e encontrei ali uma verdadeira filosofia de vida.


O humor atravessado, cortante, em meio às exaustivas descrições detalhadas dos personagens e paisagens; o Dicionário das Idéias Feitas: reunião bestial de lugares comuns da época; os dois amigos solitários destruindo as crenças da ciência do século retrasado; todas as infinitas qualidades de Flaubert transformaram minha maneira de ver o mundo.


Devorei o que pude do gênio francês: Salambô, Educação Sentimental e Madame Bovary, obra prima que mais parece música pelos seus movimentos trágicos e sinfônicos. Ficou de fora As Tentações de Santo Antão que ainda lerei.


É difícil penetrar nos autores clássicos deste período. Todos iniciam lentamente suas obras,  exigem imersão, obrigam o leitor a diminuir seu ritmo de vida e ceder ao deles. A vontade de desistir é grande até que, de repente, você é fisgado. Já fiquei tão obcecada com tijolos como Os Possessos, de Dostoievski, que acordava de madrugada para ler mais um capítulo, parecia fome noturna de quem gosta de atacar geladeira.


Ian McEwan, autor inglês que acaba de lançar seu último romance, Solar, no Brasil, é um dos escritores vivos que mais se aproxima do espírito clássico dos romances do século XIX. Não há maneirismo em McEwan, não há floreio ou vaidade besta.


Ano que vem, devo adaptar seu romance Na Praia para o teatro. Ian McEwan tem me servido de grande inspiração. Eu recomendo.


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