Muito além da caixinha de surpresas

Nem tudo no futebol tem a ver com a bola. Vitórias e derrotas podem acontecer fora de campo. E um desses aspectos me chamou a atenção. Um jogador do elenco do Botafogo se envolveu em um sério problema com drogas. Jobson foi flagrado num exame antidoping e confessou ser usuário de crack. Ao expor sua fraqueza, passou a ser visto com desconfiança por muita gente. Foi alvo de piadas, de preconceito e de pouca solidariedade. Na contramão dos fatos, um profissional da saúde resolveu se aproximar do jogador para tentar ajudá-lo a sair dessa.

O psiquiatra Roberto Curi Hallal se impôs um desafio: recuperar o jogador Jobson com um tratamento que não prevê internações ou punições exageradas. Roberto parte do princípio de que todos temos problemas e que podemos superá-los. Achei sua atitude corajosa e seu exemplo inspirador. Vamos ver o que ele tem a nos dizer.

– Dr. Roberto, afinal, qual o problema do Jobson?

Não se pode resumir uma vida inteira a um problema. Como qualquer ser humano, ele pode melhorar se dedicar-se a isto. Pode crescer como pessoa, incorporando uma cultura que lhe permita viver esta difícil posição que é ter uma vida privada, sendo uma figura pública.

– O que o levou a querer ajudar o jogador?

Minha paixão pelo Botafogo e por acreditar que não haviam sido realizados alguns cuidados que permitiriam ao Jobson pensar e agir de um modo diferente. Entendi que deveria me oferecer para ajudar. Assim que me ofereci ao Botafogo para ajudar, fui aceito.

– Como sua atitude tem sido vista?

Tenho tido o maior apoio nesta minha dedicação por parte da imprensa e do Botafogo. A decisão de não internar o atleta ganhou a simpatia de muitos. A inclusão social através de um convívio com reflexões sobre a vida é algo que dimensiona a realidade para vivermos dentro dela. Até aqui estamos todos os envolvidos, nos enriquecendo como pessoas e como instituição, tanto o Botafogo, seus representantes e, mais diretamente, Jobson e eu. Construir oportunidades enaltece e enriquece aos envolvidos, humanizar cuidados incentiva e devolve alegria à vida.

– O senhor está tentando ajudá-lo. E ele, está disposto a se ajudar?

Nada é definitivo na vida, em cada momento deveremos atualizar isto. Nos cinco meses que o acompanho, tem dado evidências de uma mudança significativa em sua vida, então acredito que desta forma o atleta acaba beneficiado. A conquista é uma etapa, a manutenção será outra etapa. Como se pode ver, as metas mudam e os cuidados também.

– O senhor pode afirmar que Jobson está livre das drogas?

Alguém poderia afirmar que ele foi prisioneiro delas? Eu nunca acreditei nisto e foi exatamente por isso que nunca indiquei internação. Somente se deve usar uma internação quando o ser humano põe em risco sua vida ou a vida daqueles que o cercam. Então estaríamos falando de medidas protetoras. Quando se fala em drogas, se negligencia tantas outras coisas, quase sempre mais importantes e mais negativas para as pessoas.

– Por que algumas pessoas com as mesmas origens sociais que ele não incorrem nos mesmos erros?

Porque as razões que levam as pessoas a viver são multideterminadas, desta forma não é uma causa promovendo um efeito. Algumas marcas mais fortes acompanham a vida com mais presença que outras. Isto não significa que o destino não possa ser mudado em qualquer momento, desde que a pessoa deseje esta mudança. Não será pelo desejo dos outros ou pelo interesse dos demais que alguém encontra razões para mudar seu modo de viver.

– O senhor acha que o Jobson pode superar essa fase e  render em campo o que a torcida espera dele?

Nunca vi questionado o atleta, todos sabem que ele é um jogador excepcional. Estamos investindo no homem Jobson para que ele se aproxime o mais que puder do atleta que alcançou ser. Se o crescimento do homem acompanhar o desempenho do atleta, estaremos diante de uma pessoa especial.

– Que outros trabalhos o senhor desenvolve nesta área?

Sou Professor Emérito da Universidade de Cuba, colaboro com universidades da Venezuela, do Equador e da Argentina. Aqui no Brasil sou o idealizador e diretor-geral do Centro de Referência à Vida do Instituto Oziris Pontes, na caatinga cearense, e também participo como diretor do Instituto Ler É Abraçar no Rio de Janeiro. Sou membro permanente de um grupos de pensadores sobre Humanidades em Catanzaro na Itália, onde definimos políticas públicas de 22 países do Mediterrâneo e quatro latino-americanos. Sou membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores e assessor permanente de Cultura e Saúde Mental da Associação Latino-americana de Pediatria – Sessão de Adolescência.

– Recentemente a imprensa deu a entender que, sem internação ou punições, o senhor trataria o Jobson na base do humor. Posso usar no meu carro o adesivo: “Só o humor salva”?

O humor salva ou fere. Use-o com adequação.

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