Fila cultural

Fim de semana chuvoso, reunimos a família para um programa off-praia. Imaginei como os cinemas estariam lotados, portanto uma chance de levar a molecada a uma exposição. Abri o jornal e fiquei surpreso com as boas opções que a cidade oferecia. Tinha Modigliani e Eliseu Visconti no Museu Nacional de Belas Artes, desenhos de Fellini no Instituto Moreira Salles, fotos do beijoqueiro francês Robert Doisneau, as cadeiras e seus arredores dos irmãos Campana… Minha mulher sugeriu que fôssemos ao Centro Cultural Banco do Brasil ver a mostra Tarsila do Amaral, sua primeira exposição individual no Rio em quarenta anos.

Chegando no Centro Cultural, tive a impressão de que todo mundo teve a mesma ideia. Ainda pensei que minha mulher talvez tenha falado alto demais, o pessoal ouviu e achou uma boa ideia. A fila descia as escadas do prédio e se estendia pelo salão principal. Tomei um susto. Comecei a calcular o tempo da espera quando me dei conta do fenômeno que ocorria: a fila transcorria na maior paz.

Geralmente fila é sinônimo de tumulto. Fila grande significa um ajuntamento de pessoas revoltadas. Não foi o que eu vi. Aliás, não é o que se vê em filas para exposições. As pessoas aguardam tranquilas a sua vez. Ficamos todos, na verdade, impressionados com a força de um artista plástico que consegue mobilizar tanta gente para apreciar seus trabalhos. E quem tinha alguma dúvida da importância do artista, passa a ter certeza ao ver quanta gente está ali. Chega a dar um certo orgulho cívico, uma sensação de que o país está andando pra frente, nem que para isso tenha que entrar numa fila.

As crianças ficaram curiosas para saber o que aquele pessoal tanto queria ver. Temos o hábito de levar um caderninho para cada um desenhar, uma forma de passar o tempo. Enquanto caminhávamos a passos milimétricos, mostramos a eles algumas coisas sobre Tarsila e o Modernismo pela internet do celular, outra maneira de nos ocuparmos.

Definitivamente a fila faz parte da exposição. Se algum dia for curador, vou me preocupar com isso. Quantas vezes a pessoa encontra um amigo e comenta: “Fui a uma mostra no MAM e tava uma fila enorme!” E nem se irrita com isso, até emenda: “Ainda bem que eu fui porque era a última semana…” Então fala do que viu, deixando o outro com água na boca por ter perdido a mostra… e até a fila,  onde se pode conhecer gente interessante e de hábitos saudáveis.  Tem solteiro que garante: certas filas dão de dez em muitas baladas que rolam por aí…

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